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Abordamos aqui diversos assuntos sobre distúrbios de aprendizagem relacionados à visão e outros temas sobre educação, dislexia e síndrome de Irlen. Você encontrará artigos, notícias, informações sobre cursos, palestras, legislação e fóruns de debates sobre o tema dislexia, educação e outros.
Entrevista com Prof. Vicente Martins
Após se apresentar no Curso Pré-Simpósio e no I Simpósio Nacional de Screeners, o professor Vicente Martins concedeu uma entrevista ao Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, falando sobre os distúrbios de aprendizagem relacionados à visão.
Como os distúrbios de aprendizagem relacionados à visão e a dislexia de leitura devem ser trabalhados na sala de aula?
VM – Os distúrbios de aprendizagem de leitura e escrita em crianças disléxicas devem ser vistos como habilidades fracas que podem ser compensadas com intervenções clínicas, pedagógicas e psicopedagógicas adequadas. Os primeiros sinais dessas dificuldades ou transtornos ocorrem no momento da alfabetização e quando não considerados pela escola e pela família persistirão ao longo dos anos. Devem ser encarados naturalmente pelos docentes à medida que as escolas, públicas e privadas, tornaram-se, declaradamente, escolas inclusivas no século XXI.
Como um educador pode identificar esses distúrbios em um aluno e orientá-lo a procurar ajuda?
VM – O atraso na fala na educação infantil é um forte indicador de que a criança, no ensino fundamental, terá dificuldades em leitura. A atenção dos pais e dos educadores, nos primeiros anos de vida, é de grande relevância para o diagnóstico precoce da dislexia no ensino fundamental. As crianças com dislexia apresentam dificuldades de reconhecer a rima nas palavras com semelhança fonética. A troca de letras na escrita e a troca de fonemas na fala, quando persistentes, são sinais fortes da dislexia, uma dificuldade específica na leitura dos textos escritos. A alfabetização para as crianças com sinais de dislexia indica também uma etapa difícil e sofrível uma vez que estas crianças têm dificuldade de soletrar e ler em voz alta os textos escritos, especialmente, os mais simples, com as fábulas, s sonetos e os contos.
O que os educadores devem fazer para minimizar os efeitos de preconceito que muitas crianças são submetidas?
VM – Os problemas de decodificação leitora bem presentes nos disléxicos podem ser minimizados com o trabalho da consciência fonológica, isto é, o de levar as crianças disléxicas à consciência de que as palavras podem ser segmentadas em fonemas (vogais, consoantes e semivogais) e que a maioria das dificuldades em soletração reside exatamente no princípio alfabético, isto é, a dificuldade que as crianças têm de transformar em signos gráficos (letras, sinais diacríticos) em fonemas ou sons da fala. Superada esta barreira, a leitura tende a ter velocidade e fluência e, portanto, levar a criança ao essencial da leitura, isto é, a compreensão leitora.
Como o senhor avalia um evento como o I Simpósio Nacional de Screeners: Visão, Cognição e Educação para a discussão dos distúrbios de aprendizagem relacionados à visão?
VM – A iniciativa pioneira dos doutores Márcia e Ricardo Guimarães de oferecer, em BH, à comunidade um simpósio é uma oportunidade singular, em nosso país, de elevar a leitura e a dislexia a uma questão de educação e saúde públicas. O Simpósio reuniu oftalmologistas e neurologistas que passaram a ter um olhar clínico sobre a dislexia. Psicólogos e neurocientistas apontaram novos estudos e pesquisas para a questão leitura e da cognição e nos foi oferecida uma abordagem educacional sobre a problemática da leitura no meio escolar. É um evento que deve, doravante, estar na agenda nacional de educadores, médicos, pais e disléxicos.
No I Simpósio conferimos a presença de profissionais de diversas áreas, interessados em trocar conhecimentos a respeito de dificuldades de aprendizagem envolvendo a visão. Como o senhor avalia a atuação da oftalmologia e essa ligação às variadas áreas envolvidas no processo de aprendizagem?
VM – O primeiro relato de dislexia, na Inglaterra, em 1896, foi por fedito um médico ofaltomologista a que chamou de ”cegueira verbal”, após ouvir uma queixa de um garoto de 14 anos que apresentava sinais de uma inteligência incomum e bom desempenho em Matemática, mas encontrava barreiras para o aprendizado da leitura e escrita. Assim, os principais e mais evidentes sinais de dislexia são relacionados à percepção visual, daí a importância do olhar clínico e neurovisual dos oftalmologistas. Sem a discriminação visual, as crianças tendem apresentar (e sofrer) com a leitura inicial, especialmente a alfabetização em leitura, criando barreiras para o aprendizado do currículo escolar uma vez que todas as disciplinas dependem da leitura. Durante o Simpósio, aprendemos muito com estudos e pesquisas que assinalam conhecimentos consistentes da Dra. Márcia e do Dr. Ricardo Guimarães sobre esta relação visual e leitura, o que, no meu entender, sob o enfoque da neurociência, darão, nos próximos anos, uma contribuição importante para o tratamento clínico dos disléxicos, o que vem sendo constatado nos casos em que já li e ouvi de pacientes recorreram a lentes com filtros Irlen e que passaram a ler com o movimento adequado dos olhos durante a decodificação leitora, dificuldade central dos disléxicos.
Vicente Martins é professor e pesquisador em Lingüística, Leitura, Escrita e Ortografia dos Cursos de Graduação e de Pós-Graduação na área de Letras, da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA, Sobral, Ceará).

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